[ André Luís Silva Nascimento: “A biblioteca desempenha um grande papel onde não se tem acesso à internet” ]

Com o olhar à espreita, André escuta. Antes da fala, a reflexão é profunda e parece mover águas já banhadas e folhas já viradas. Afinal, nove anos como voluntário da biblioteca comunitária de Caju Una, em Soure (PA), lhe rendeu muitas histórias.

Quando a Vaga Lume chegou na sua comunidade, em 2006, André tinha dez anos. Era o início da sua aventura pelos livros. Caju Una é uma comunidade pra banho na água salobra, comer um peixe e se balançar na rede, como André gosta. Hoje, com 20 anos, ele volta para casa quando está de folga das aulas: André estuda Letras na Universidade Federal do Pará (UFPA). Teoria e prática se complementam em André. Por esse motivo, foi convidado pelo BiblioSesc do Sesc São Caetano para compor uma mesa de bate-papo sobre bibliotecas comunitárias na Bienal do Livro de São Paulo.

Ao lado de Tânia Piacentini, coordenadora da biblioteca comunitária Barca de Livros em Florianópolis, a conversa foi mediada pelo escritor Edson Rossatto. Diante das duas realidades diferentes, Rossatto levantou temas para que Tânia e André desenvolvessem, a partir do contexto onde atuam. A surpresa é que as respostas se aproximavam: dificuldade de apoio local, mobilização comunitária, acesso. No entanto, em relação ao tema “uso da tecnologia em biblioteca”, André abordou o conceito de tecnologia para desenvolver seu raciocínio."A tecnologia tem um significado muito amplo, não podemos entendê-la apenas como sendo smartphones, tablets e computadores. O próprio livro é algo tecnológico, algo novo às comunidades que não têm acesso a ele. Graças à contribuição da biblioteca comunitária, não foi preciso internet ou meio digital para que eu estudasse. A biblioteca supriu essa necessidade que a gente tem, pois ela desempenha um grande papel onde não se tem acesso à internet. Os livros, ainda hoje, conseguem desempenhar uma coisa muito legal nas comunidades rurais no sentido de dar informação e fazer com que as pessoas sejam leitoras e tenham conhecimento de outras culturas outros povos ao redor do mundo.

 

 

André também foi convidado pelo Conselho Regional de Biblioteconomia para nos representar na conversa sobre Biblioterapia: o poder da leitura que transforma histórias. Foram momentos de muita troca e aprendizagem.

Conversamos com o André para marcar sua participação tão especial na Bienal. Confira!

        

- André, queria que você se apresentasse.

Olá, me chamo André, tenho 20 anos, moro em Soure, no Pará, e sou estudante de letras na Universidade Federal do Pará. 

- Quais vozes você levou para o bate-papo no BiblioSesc?

Eu levei comigo a voz de cada pessoa que atua como voluntário da Vaga Lume e que tiveram suas vidas transformadas graças ao projeto, ao livro e a leitura, e que continuam fazendo o trabalho acontecer através do esforço para que inúmeras pessoas tenham acesso a uma biblioteca. 

- O que representa a sua vinda para a Bienal do Livro?

Representa, pra mim, que cresci com um projeto, uma realização. Representa também conquista, por fazer com que sejamos ouvidos em outros espaços, além do lugar onde moramos. Nunca pensei que a primeira vez que eu fosse à Bienal seria para representar um projeto que mudou e transformou a minha vida, que me fez acreditar que sonhos são possíveis de realizar, isso me deixou intensamente feliz.

- Uma das perguntas no BiblioSesc era sobre tecnologia e internet. Você disse que o próprio livro é uma tecnologia, descontruindo a ideia de que papel e internet fossem coisas excludentes. Qual a sua visão sobre isso?

Sim, eu acredito que a forma como vemos a tecnologia é muito relativa. Tecnologia é algo que inova, que muda e que facilita a vida das pessoas. Em comunidades rurais, onde o acesso à internet, por exemplo, é difícil, as pessoas buscam informações em outros meios. Rádio, televisão e livros são, para essas pessoas, um meio tecnológico, pois facilita suas vidas e inovam as suas formas de viver. Creio que esse seja o principal papel da tecnologia: transformar. Por isso o livro é um meio tecnológico ainda muito importante, pois transforma, facilita e muda a vida das pessoas.

- Como foi sua participação na mesa sobre Biblioterapia?

Nunca pensei que eu iria uma vez para a Bienal como palestrante. Agora imagina ir duas vezes, no mesmo período! Foi incrível. No segundo momento, em que o tema foi sobre biblioterapia, aprendi muito sobre outras facetas do livro, de ser um instrumento de terapia na vida das pessoas. E, de fato, o livro desempenha isso e através dele muitas coisas podem ser feitas, principalmente nos ajudar, por meio das histórias que lemos, a lidar com a nossa forma de viver em sociedade, passando sempre por cima dos obstáculos da vida.

- Hoje, qual o seu papel na comunidade e na biblioteca?

Hoje, eu desempenho uma função maior em relação ao trabalho na minha comunidade, Caju Una, pois ao invés de uma, faço o trabalho em cinco. A minha função é monitorar, fortalecer e incentivar o trabalho voluntário nessas comunidades, fazendo com que juntos, formemos uma rede, que acredita e valoriza o protagonismo de cada pessoa, tornando-a um agente de transformação da sua própria realidade e da realidade de inúmeras pessoas.

 

 

.

Compartilhe:
Share |

Cadastre-se abaixo para receber o Boletim da Vaga Lume!

Nome:

Email:

Rua Aspicuelta, 678, Vila Madalena - CEP 05433-011 - São Paulo - SP

Tel.(11) 3032.6032 Google Maps

Site: Communitas + Web e Ponto      Hospedagem: locaweb